terça-feira, 9 de abril de 2013

A roma de Fellini - Crítica




Por Carolina D'Errico

Fellini fez de Roma uma amostra do fenômeno atemporal hoje chamado de "indústria cultural".

"É esta a cidade das ilusões.”
Gore Vidal, no filme Roma, falando sobre a capital italiana



  Esse longa de 1972 tem uma proposta peculiar ao mundo do cinema: ele não apresenta um trama narrada linearmente e nem possuí um protagonista - com relação à uma pessoa; o único protagonista que poderíamos encontrar nesse caso é a "cidade eterna".
  Com o filme, Fellini faz com que o espetador se delicie com esse "caos" que é Roma; com todos nós estamos fadados a nos encantarmos com essa cidade que é uma grande mistura de culturas e de épocas, onde a cultura erudita se mistura com a atual. Essa grande obra não tem uma trama e nem mesmo um protagonista, na verdade a protagonista principal é a cidade de Roma.
  Mostra o antigo e o novo da Cidade Eterna. Com uma narrativa descontínua e simbólica, o longa gira em torno das fantasias deste cineasta italiano que deixou Rimini por essa cidade que povoava o imaginário dos habitantes do interior da península.  E assim o filme continua, cena por cena, através de memórias, alucinações; com um personagem contínuo, mas centenas de caras novas, música, diálogos, todos seguindo seu curso.
   Ele resume em três diferentes perspectivas: a imagem de Roma a partir das memórias de um jovem estudante na sala de aula e na sala de cinema; Roma como se lembra um adulto jovem do interior (o alter ego do diretor?) que lá chegou em 1939; e o quadro “objetivo” de Roma apresentado por Fellini adulto, enquanto realiza um documentário sobre a Cidade Eterna. 
   As Romas de Fellini são muitas: aquela da Antiguidade Clássica, da Renascença e da Reforma, assim como a cidade barroca que representa a Igreja e o lado negro da Inquisição. Encontramos também a Roma moderna de Mussolini e seu sonho de reeditar a glória imperial. 



“(...) Não existe uma Roma única, mas uma série de imagens, cada uma das quais interpenetra e enriquece os significados das outras (...)”


  Um professor dos tempos de Mussolini volta de um passeio com sua classe de crianças de um colégio de padres. De repente ele para e explica que o rio que está diante deles (na verdade, um pequeno riacho) é o famoso Rubicão. Ao atravessá-lo, o imperador Julio César teria pronunciado a famosa frase: A sorte está lançada (Alea jacta est). Mas o imperador disse isso ao sair de Roma, ao passo que após pronunciar a frase todos se põem a caminho da Cidade Eterna. É como se Fellini estivesse dizendo que seu verdadeiro desafio é conquistar Roma, e não o mundo.

   A pensão romana a que o jovem do interior chega em 1939, com seus personagens estranhos, não escapa da sátira felliniana. Numa trattoria, ele será servido com um grande repasto e será também lembrado: “o que você come, você caga!”. Tarde da noite, a sombra de cães vadios nos trás a lembrança a loba, símbolo antigo de Roma. De repente, somos jogados de volta no tempo presente quando a equipe de Fellini se aproxima de Roma através do anel viário que circunda a cidade. Um caminhão de gado capota, prostitutas na beira da estrada, um cavalo solitário surge no meio da estrada, mas essa é uma visão muito comum em certos países da América Latina. A cena culmina num engarrafamento em torno do Coliseu.
    Na seqüência seguinte, Fellini será interpelado por estudantes que o atacam porque seus filmes não se destinam a resolver problemas sociais. Da seqüência no buraco do metrô passamos à comparação entre a sexualidade durante o período Fascista justaposta à desinibição dos hippies na Piazza di Spagna. Então chegamos ao surrealista desfile de moda eclesiástico e à Trastevere, onde os italianos festejam a si mesmos na Festa de Noiantri. Então Anna Magnani se despede de Fellini e somos apresentados à versão moderna da invasão de Roma pelos bárbaros, representados pelo grupo de motociclistas, “cavalgando” por todos os monumentos que marcam as muitas épocas que Roma já viveu.



  “(..) O filme representa o Fellini quintessencial, em seu tratamento da interação entre realidade e ilusão, autobiografia e história (...)”
Peter Bondanella


  Em Roma de Fellini, o cineasta dá asas a uma sensação que sempre o acompanhou: logo abaixo da Roma atual está a Roma Antiga, tão perto, tão longe.  A construção do metrô realmente criou oportunidades de volta ao passado. Evidentemente, avisa Fellini, nada parecido com o ambiente totalmente preservado que aparece no filme jamais foi encontrado.Ele sonhou que estava preso numa masmorra bem no fundo de Roma, quando escutou vozes sobrenaturais vindo das paredes que diziam: “Nós somos os antigos romanos. Nós ainda estamos aqui”. Quando ele acordou, lembrou-se de um filme de Hollywood que havia assistido quando criança. Fellini se pôs a especular sobre a possibilidade de que em algum lugar no subterrâneo de Roma uma preservação similar tenha sido possível por ter sido hermeticamente fechada
  Visualmente, é um filme um pouco confuso, mas essa era uma das principais características desse diretor; as imagens que ele passa tem significado bem mais profundo do que o roteiro do filme, que para ele devem ir muito além das atitudes tangíveis.
  
  

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